Os principais medos que me impediam de embarcar no meu sabático

Os principais medos que me impediam de embarcar no meu sabático

Quando surge o assunto “período sabático” o que costuma vir a sua cabeça? Se você é uma viajante como eu poderá pensar sobre paisagens paradisíacas, fazer novos amigos pela estrada e uma busca não só por novos lugares, mas também por nós mesmas, numa grande jornada de autoconhecimento. Sei também que algumas de vocês devem associar um sabático ao filme “Comer, Rezar, Amar” e eu não te julgo por isso rs. Tudo parece muito incrível, mas preciso te confessar uma coisa: até para tirar um sabático existem momentos de dúvidas, medos e muitas inseguranças.

No meu post anterior eu fiz uma lista com 10 medos, desculpas e pré conceitos que costumamos colocar como barreira para não tirar um sabático. Mas aqui resolvi contar um pouquinho mais sobre a minha história. Nestes meus 33 anos de vida eu passei no mínimo uns 20 anos sonhando em passar um tempo fora. Porém, quando parei para pensar quais eram os principais motivos que não me deixavam tornar este sonho realidade, acabei percebendo que as 3 perguntas que mais me tiravam o sono eram: 

1- “E se acontecer alguma coisa com a minha família?”

Este sim era meu maior medo: estar longe, do outro lado do oceano e receber alguma notícia de que algo aconteceu com um dos meus familiares. Conversei com algumas amigas que já passaram um tempo fora e com outras pessoas que me alertaram “Eve, se tiver que acontecer alguma coisa não adianta se você está do outro lado do mundo ou do outro lado da sua casa… vai acontecer e não temos muito o que fazer”. Confesso que foi muito difícil criar coragem e correr este risco, mas depois de muito pensar percebi que tinha chegado o meu momento, que eu precisava passar por esta nova experiência e confiar um pouco mais em Deus e nos meus instintos (e não é que deu certo?!).

2- “E se eu nunca mais conseguir um emprego?”

O medo de ficar desempregada costuma ser um dos maiores desafios a ser enfrentado nesta tomada de decisão. O número de desempregados no nosso país é assustador, por isso, estar empregada e pedir demissão para passar um tempo viajando parece ser loucura para muitos. Porém, cheguei num ponto da minha vida onde percebi que era hora de me colocar como prioridade pela primeira vez e, de fato, viver algo que eu sempre sonhei. “E se eu nunca mais arrumar emprego”? “Nunca” é tempo demais e certamente eu iria conseguir me virar fazendo uma coisinha ou outra, enquanto minha carteira não encontrasse um registro novamente.

3- “Mas… e meu cabelo? #comofas?”

Só quem é escrava das químicas sabe: quando a raiz do seu cabelo está crescendo tudo o que você mais quer é agendar uma hora no salão para dar um tapa na peruca e deixar as madeixas em dia. Agora quando você é preta, estar com o cabelo “desarrumado” pode te causar mais insegurança e medo, seja de olhares tortos em uma loja que você entra, até a situações constrangedoras de ter sua bolsa revistada (mas não vou entrar nesta discussão agora). Eu faço relaxamento há mais de 20 anos e nem lembro mais como é meu cabelo sem química. A cada um mês e meio, no máximo dois, corro no salão e passo no mínimo duas horas neste ritual de “libertação capilar”. Sempre que eu pensava em passar um tempo mais longo fora do país vinha a dúvida “mas o que eu vou fazer com o meu cabelo? A raiz vai crescer, vai ficar tudo arrepiado, vou ter vergonha, vou ficar feia” etc, etc, etc. Agora que já fui e voltei percebi que este era o meu medo mais besta. A raiz cresce, o cabelo não fica do jeito que a gente mais gosta, mas isso não faz a menor diferença quando você está curtindo o seu momento. Não vou dizer que não rolaram momentos de preconceito na viagem porque estaria mentindo, porém tenho certeza que a culpa não foi do meu cabelo. Por isso ficou aqui o aprendizado e ouso aqui te questionar: é melhor estar com o cabelo arrumado no seu sofá e sem sair da sua zona de conforto ou estar com o cabelo arrepiado mas admirando os alpes suíços e realizando os seus sonhos por este mundão afora? Agora já tenho certeza que a opção 2 se encaixa melhor no meu perfil.

No final das contas percebi que os motivos que eu tinha para tirar um sabático eram muito mais importantes e relevantes que os medos que eu alimentava. E você? O que te impede de tirar um sabático? Por que você tem adiado a realização dos seus sonhos?

Meu sabático de 100 dias – Capítulo 2 – O início da jornada

Meu sabático de 100 dias – Capítulo 2 – O início da jornada

23 de agosto de 2019

Sim, o último mês passou e eu nem vi. Parece que foi ontem que eu ouvi aquele chamado enquanto fazia a trilha da hidrelétrica a caminho de Águas Calientes. Depois de muito planejamento, economia e uma série de escolhas, finalmente tinha chegado a minha hora de partir.  Era a hora de começar o meu sabático.

“Mas por que Marrocos? Mas você vai sozinha pra lá mesmo? Eu ouvi dizer que eles sequestram mulheres? Já ofereceram camelos pela esposa de um amigo de um primo de um conhecido!”. Estes foram alguns dos vários questionamentos que algumas pessoas me fizeram antes que eu iniciasse minha jornada por este belíssimo país do norte africano. Como se não bastasse a incerteza de abandonar tudo e todos no Brasil, ainda tinha que lidar com meus medos, supostos fracassos e o risco de desaparecer em terras marroquinas. Nem preciso dizer que acabei deixando isso tudo de lado e apenas fui.

Cheguei no aeroporto de Guarulhos, fui fazer meu check in e guess what? Meu vôo iria atrasar uma hora. A vontade era tirar o band daid de uma vez: entrar no avião, chegar logo no primeiro destino e virar a chavinha do sabático na minha cabeça. Mas a vida, muitas vezes, não copia as fantasias da nossa cabeça. Confesso que, no final das contas, a espera nem foi tão longa (aliás, durante a viagem tive que aprender a esperar muito mais). Próximo do embarque fiz uma daquelas amizades instantâneas com uma mulher e o filho que estavam voltando para Portugal e iam fazer escala em Casablanca. Cinco minutos de prosa, passaporte, bilhete e “boa viagem”.

Como iniciei meu voo depois da meia noite, apenas jantei e adormeci. Esta seria a primeira das muitas noites mal dormidas da viagem. E não falo isso em tom de reclamação não. Aliás, durante este sabático pude conhecer vários tipos de noites mal dormidas, mas este assunto fica para outro post. Logo de manhã acordei, abri um pouco a janela e só pude ver aquela imensidão do mar. Estava sentada na última fileira da aeronave. De um lado a janelinha e do outro um brasileiro com quem pude bater papo para a viagem passar mais rápido. Ele estava indo para Portugal com o intuito de morar por lá, mas antes queria alugar um carro em Casablanca para conhecer algumas cidades no Marrocos. Ele falava apenas português, tentou embarcar sem passagem de volta (mas a Air Maroc não autorizou, por isso acabou comprando uma na hora), não possuía reserva de hotel, seguro viagem, nem nada que comprovasse o motivo de sua visita nestes paises. 

É muito louco isso, não é mesmo? Um dos meus maiores medos era ser barrada na imigração e por isso levava comigo uma pasta com todos os documentos possíveis e imagináveis para provar o meu forte vínculo com meu país, assim como motivos para voltar pra minha terra. Se este cara conseguiu ou não entrar em Portugal eu nunca saberei (eu sei, eu deveria ter pego o contato dele pelo menos pra contar o final da história pra vocês, mas… #mejulguem).

Ao chegar em Casablanca o choque veio primeiro na forma de um bafo quente. Eita calor da peste. Logo no desembarque um policial me questionou o motivo da viagem e quantos dias ficaria no país. Passei no raio X de buenas (li vários relatos de pessoas que tiveram problemas), passei pela imigração e já fiz amizade com duas cariocas que estavam indo para Fez. Partilhamos do mesmo perrengue de não falar francês nem árabe, compramos nossas passagens e embarcamos até a estação Casa Voyageurs onde nos despedimos e rumamos cada uma para o seu destino.

Falando em perrengue, o primeiro trem estava vazio, então sentamos no primeiro lugar livre que encontramos. Quando peguei o segundo trem para Marrakesh descobri que os assentos eram numerados. E pra eu entender os números dos carros e dos assentos? Primeiro tentei tirar satisfação com um cara que estava sentado no assento que tinha o mesmo número que o meu enquanto ele tentava explicar que meu carro era outro. Fiquei indo, voltando, subindo e descendo escadinha de vagão, escorreguei no piso molhado e quase caí… é claro que, pra ajudar, não encontrei nenhuma pessoa que falasse inglês para me ajudar. Pela primeira vez na minha vida eu me senti como uma estrangeira em um lugar estranho que ninguém consegue compreender o que eu falava. Mas no final, a boa e velha mímica me ajudou a encontrar meu assento e seguir para Marraquech.

Agora um parênteses: achei o trem no Marrocos bem diferente, pois nunca tinha viajado em um trem com cabines para 8 pessoas. Fechando o parênteses, quanto mais eu me afastava de Casablanca, mais eu notava a diferença de paisagem e me sentia mais próxima do deserto. Algumas horas depois eu desembarcava em Marrakesh e aí veio o segundo choque: um bafo ainda mais quente. Já era final de tarde, mas a temperatura lembrava Rio de Janeiro no verão em horário de almoço.

Esperei alguns minutos e encontrei o motorista que me levaria até o hostel. Sim, eu cheguei no Marrocos com muito medo e por isso acabei pagando caro num transfer de ida até meu destino final. Aproveitei os minutinhos no carro para admirar aquela cidade que parecia bem diferente de todos os lugares que eu já tinha visitado na vida. Entramos em várias ruelas e percebi que realmente tinha feito a melhor escolha por contratar o transfer, caso contrário eu iria me perder com toda a certeza do mundo. Fiz meu check in, conheci minha cama, companheiros de quarto e escolhi meus passeios dos próximos dias.

Confesso que quando escolhi ir para o Marrocos o maior motivo foi Deserto do Saara. Porém, como sou uma pessoa muito impulsiva, comprei minha passagem na louca sem saber ao certo quantos dias eu precisaria para conhecer o Saara. Resultado, meu tempo era curto demais para conseguir realizar este sonho que teve que ficar para outra oportunidade. No hostel conheci um brasileiro (e já fiquei felizona, pois é indescritível a felicidade que sentimos quando estamos fora e encontramos “gente da gente”) que ia fazer o passeio para o Deserto de Zagora no dia seguinte. Até cogitei mudar meus planos, mas acabei mantendo os meus passeios ao invés de conhecer aquele que não era o deserto #realoficial dos meus sonhos. 

Tomei um banho para aliviar a tensão, fiz comprinhas de suprimentos em um mercadinho que tinha perto do hostel e finalmente sentei para tentar compreender que, agora sim, o meu sabático tinha começado. Felicidade? Alegria? Não! Chegou a hora do terceiro e mais forte choque. Senti um misto de nó na garganta e um medo gigante de ter feito uma grande cagada na vida. “Mas por que diabos eu não peguei 30 dias de férias e caí na estrada? Pra que passar tanto tempo fora de casa? Sabático pra que? O que que eu tô fazendo aqui? Será que eu tô ficando louca?”. Mais lágrimas rolaram. Lembra daquela Eve corajosa que pediu demissão? Parece que fugiu e deu espaço para Eve pessimista entrar em ação. 

Sequei as lágrimas, respirei, fui pra cama, lutei contra o fuso e adormeci. O amanhã seria um novo dia e eu precisava dar uma chance para mim mesma e para este meu sabático. Não era mais hora de sonhar acordada, pois finalmente tinha chegado a hora de viver o meu tão esperado sonho.