Meu sabático de 100 dias – Capítulo 4 – Adiós Marrocos!

Dizem que nosso sexto sentido costuma funcionar melhor quando estamos viajando e para mim isso é super verdade. No meu último dia em Marraquech eu quis ir logo de manhã na estação de trem para comprar meu bilhete de volta para Casablanca, mas o funcionário do hostel disse que não era necessário, pois os bilhetes não acabavam assim tão fácil. De fato, se eu tivesse ido comprar na hora  eu teria conseguido, mas também teria perdido o horário do trem e, consequentemente, perderia o meu voo, causando grandes transtornos nestes meus últimos momentos de “adiós Marrocos”.

Fato é que eu aproveitei que o sol ainda não estava tão forte para fazer aquela caminhadinha marota de 40 minutos até a estação que seria palco do golpe. Sim, mesmo lendo diversos relatos, tudo aconteceu muito rápido. Acabei sendo enganada pelo atendente, pois ao pedir minha passagem e entregar o dinheiro ele ficou pedindo mais dinheiro, mais dinheiro, além de estar super irritado e não fazendo o mínimo esforço pra falar inglês. Eu, muito da iniciante, fui dando tudo o que eu tinha pra ele, 300 dirhans, até mostrar que não tinha mais nada. No final das contas ele me deu o bilhete, 21 dirhans de troco e começou a atender um outro homem super acelerado. Saí da estação um pouco chateada por ter gastado mais do que eu esperava, já que no caminho de volta iria passar no Carrefour para comprar umas guloseimas, minhas refeições do dia e se sobrasse pagaria um táxi para fazer meu transfer. Acabei comprando um pacote de batata, uma água, um iogurte, uma bolacha e isso seria tudo o que eu tinha até a manhã seguinte (quando eu poderia comer o lanchinho do avião). Ok, você ainda não entendeu a parte do golpe, mas te conto mais adiante.

Voltei para o hostel, tomei meu último banho, arrumei minhas coisas, enrolei um pouco, coloquei minhas mochilas e parti para a estação a pé, novamente, num sol de mais de 34 graus. Já não tinha mais dinheiros para o taxi, então saí com umas quatro horas de antecedência para parar no caminho quantas vezes fossem necessárias.

Cheguei na estação morta, suada, mas passando bem. Passei algumas horas ali olhando o movimento, comendo minhas besteiras e esperando dar o meu horário de embarcar. Desta vez não tive dificuldades de localizar meu assento, que ficava numa cabine com outras 3 pessoas. Aos poucos Marraquech ia ficando para trás, assim como minha curta jornada pelo Marrocos. Eis que meus pensamentos são interrompidos pelo fiscal que veio conferir os bilhetes. Foi nesta hora que eu olhei com mais atenção para tudo que estava escrito ali e percebi um “179”. Fiquei matutando, pensando o que aquele número poderia significar e quando suspeitei que poderia ser o valor do bilhete o sangue já subiu. Na dúvida, perguntei para uma das meninas que estava na minha cabine e falava inglês e ela confirmou: sim, a passagem custava 179 e não 279 como aquele querido atendente tinha me cobrado.

Sei que este tipo de situação acontece em vários lugares, até mesmo aqui no Brasil com turistas estrangeiros, mas existem sim formas de evitar este tipo de problema. No meu caso, eu até classificaria este golpe como burrice da minha parte, pois eu deveria: 1- ter pesquisado o valor da passagem previamente e já levar o dinheiro contado, 2- Na dúvida eu deveria ter aberto a minha boca e no mínimo perguntado, já que eu não tinha certeza do valor da passagem. Além disso, eu poderia ter comprado a passagem pelo site da ONCF e mostrado o meu ticket pelo celular. Mas, ficou aí o aprendizado para nas próximas viagens eu prestar mais atenção.

Estação de Marraquech – Foto by Évelin Karen

Vida e viagem que seguem! Fiz a devida baldeação e em pouco tempo estava em Casablanca. Para entrar no aeroporto é necessário passar pelo raio x que fica com uma filinha considerável quando chega algum trem, mas como eu tinha uma noite inteira para esperar até chegar a hora do meu voo acabei sentando em um dos banquinhos, deixando a geral passar. Quando chegou a minha vez, eis que sou parada e questionada “o que é isso na sua mochila?”. Se você ainda não sabe desta história, contei mais detalhes no post “Marrocos: 10 curiosidades da minha passagem por lá“, mas no final deu tudo certo e consegui passar sem grandes problemas.

E eis que passo a minha primeira noite no aeroporto. Consegui usar o wi-fi de graça por uma hora, aproveitei para escrever, fazer cruzadinha, olhar o painel de voos diversas vezes e, em alguns momentos, até consegui dar uns cochilos, sempre abraçada com a minha mochila de ataque e com as alças do meu mochilão enroladas nas minhas pernas. Foi uma noite tranquila, mas logo de manhã o que vi foi o caos. Grandes filas, pessoas sem educação furando fila, gritaria, briga e uma energia bem pesada. Deve ser por conta disso e do golpe da passagem que eu acabei indo embora com uma imagem não muito boa. Costuma ser sempre assim: os momentos bons acabam sendo ofuscados pelos ruins.

E na verdade, neste momento também sinto que ainda não consegui me conectar a esta viagem. Até penso que se eu não passar na imigração na Europa será um livramento, pois tenho me sentido um peixe fora d’água nesta história de sabático. Já até estou cogitando ver os valores para eu antecipar meu voo de volta. O plano de conhecer o Marrocos era para visitar o Deserto do Saara e não rolou. Depois o plano era o Sabático de 100 dias, mas e se for menos dias? Está tudo bem, não é mesmo? Não quero me forçar a fazer algo que não está me deixando feliz ou não é como eu sonhei. Mas vamos ver como serão os novos capítulos desta jornada. Finalmente guardo meu caderno e embarco. Adiós Marrocos. Próximo destino: Porto, Portugal. Será que conseguirei entrar?

E nestes primeiros dias de viagem me surgiu a questão: será que vale a pena todo o perrengue, economia e baixo custo para viajar por mais tempo ou será que agora que eu vi como é prefiro encontrar um emprego bom para fazer uma boa e rica viagem de férias? O que vocês acham?

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2 comentários em “Meu sabático de 100 dias – Capítulo 4 – Adiós Marrocos!

  1. Não é uma boa maneira de despedir de um lugar, isso é fato…esses golpes com turistas são vergonhosos.
    Infelizmente temos aqui em nosso país e tantos outros.
    Mas, deixando isso a parte, foi uma experiência incrível! E tudo isso que compartilhou nos ajuda a preparar melhor e se resguardar deste tipo de coisa em nossa aventura!!!

    1. Vivendo e aprendendo sempre. Infelizmente eu conheço gringos que sofreram golpes aqui também e a gente fica super chateada nestas situações. Mas você está certo: melhor deixar isso de lado e lembrar das boas experiências vividas.

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